sábado, 19 de outubro de 2013

Joaquim Cordeiro da Mata: Pai da Literatura Angolana


Joaquim Cordeiro da Matta: Pai da literatura angolana O PAIS
É quase um ilustre desconhecido ao grande público leitor, as suas referências são escassas, mesmo sendo considerado o pai da literatura angolana, pouco ainda se faz para divulgar a sua obra e, concomitantemente, as escassas referências sobre a sua pessoa. Trata-se simplesmente de um escriba que, em muitos aspectos, poderá ter-se adiantado na sua época ou, simplesmente, desempenhado o seu papel artístico.

Joaquim Dias Cordeiro da Matta, natural de Icolo e Bengo, nasceu em 25 de Dezembro de 1857 na povoação de Cabiri. Morreu precocemente em 1894. Terá sido provavelmente o mais velho dos irmãos, Luís Domingos Cordeiro da Matta e Domingos José Cordeiro da Matta cujos nomes vêm mencionados em mapas do movimento da escola do concelho de Icolo e Bengo durante o ano de 1879.

Estudava-se na época disciplinas como leitura, escrita, catecismo, aritmética e tabuada. Possuindo igualmente uma formação primária elementar, Joaquim Dias Cordeiro da Matta é um dos muitos exemplos do autodidactismo que continua a fazer história no jornalismo e na investigação em Angola. Numa nota necrológica publicada no jornal O Arauto Africano, diz Mamede de Sant’Ana e Palma: “ Não cursou universidade, nunca esteve em colégio nenhum da Europa, nem em escola nenhuma de Loanda e é por isso mesmo que tem juz (…) à estima dos seus patrícios e ao respeito dos homens ilustrados, porque à força de muita vontade tem querido honrar o seu país legando à posteridade o fruto da sua dedicação

(…)”. Evitando fixar residência em Luanda, passava maior parte do tempo na Barra do Kwanza, onde vivia. E «rodeava-se de uma biblioteca que causava admiração aos contemporâneos». J.D. Cordeiro da Matta, «o pai da literatura angolana», demonstrou possuir uma personalidade potencialmente multifacetada. Mário António analisa-a em sete vertentes: poeta, cronista, romancista, jornalista, pedagogo, historiador, filólogo e folclorista.

Publicou entre outras obras Delírios (poesia), Philosophia Popular em Provérbios Angolenses (1891, pesquisa da literatura e filosofia oral), Ensaio de Diccionário KimbunduPortuguez (1893), Cartilha racional para se aprender a ler o Kimbundu escrita segundo a Cartilha Maternal de João de Deus.1 A Poesia de cordeiro da Matta, figura dita por Mário António a mais saliente no relevo (não muito alto, reconhecemos) da sua geração, já completou o respectivo percurso mental nessa data. Basta resumirmos-lhe a evolução intrínseca, no que diz respeito a temática, no que é a do Amor, para vermos isso. 2 A poesia de Cordeiro da Matta, embora beba da poesia clássica portuguesa, exalta a beleza da mulher negra de uma forma muito particular, justamente num período em que o homem negro pelo mundo a fora era discriminado e selvaticamente desvalorizado. Constrói seus versos com arquitextualidade simples; rimas, métrica, metáforas e símbolos naturais da sua região, Icoli e Bengo, para exaltar a mulher. Canta: “Negra! negra! como a noite/d’uma horrível tempestade,/ mas, linda, mimosa e bella,/ como a mais gentil beldade!/ Negra! negra! como a asa/ do corvo mais negro e escuro,/ mas, tendo nos claros olhos,/ o olhar mais límpido e puro!/Negra! negra! como o ébano,/ seductora como Phedra,/ possuindo as celsas formas,/ em que a boa graça medra!/ Negra! negra!... mas tão linda/ co’os seus dentes de marfim;(..).

no presente canto, intitulado como “Negra”, entre outros, o vate incorpora símbolos naturais como a noite, que podemos definir como o período ocorrido durante a rotação da Terra, conhecido como dia em que não é recebida a luz do Sol; o corvo que é uma ave da família Corvidae, representantes de maiores dimensões da Ordem passeriformes. Possuem ampla distribuição geográfica nas zonas temperadas de todos os continentes, vivendo em bandos com estrutura hierárquica bem definida e formam, geralmente, casais monogâmicos.

Esses símbolos provenientes da mãe natureza são construídos para ditar a beleza da mulher negra. O seu encanto pela mulher negra da sua terra, é evidente no poema “Uma Kissama”, o vate é eloquente a esculpir seus versos: Em manhã fria, nevada,/ n’essas manhãs de cacimbo/ em que uma alma penada/ não se lembra de ir ao limbo;/ eu vi formosa, correcta,/ não sendo europeia dama/ a mais sedutora preta/ das regiões da Quissama (…). É elegante a forma como o vate canta a mulher negra.

Essa realidade traduz um fenómeno muito importante para a valorização do negro na literatura da época e oferece aos académicos angolanos uma oportunidade soberba de observar o contributo da angolanidade em relação aos movimentos de valorização do homem negro como a negritude. Segundo Senghor, a negritude é o conjunto de valores culturaies da África negra. Para Césaire, esta palavra designa em primeiro lugar a repulsa. Repulsa ante a assimilação cultural; repulsa por uma determinada imagem do negro tranqüilo, incapaz de construir uma civilização.

O cultural está acima do político (…) O nascimento deste conceito, e o da revista Présence Africaine (em 1947) de forma simultânea em Dakar e París terá um efeito explosivo.

É importante verificarmos que já no século XIX, o pai da literatura angolana possuía sentimento muito nobre em relação aos valores da terra e a partir da sua pena burilava os seus lindos textos, num contexto radicalmente hostil as independências africanas. Esse motivo deve ser valorizado pelo mundo académico e enaltecido, porquanto oferece-nos sinais de ter antecipado ou lançado sementes para a visão de um grande movimento da literatura africana ou terá sido um dos pioneiros da introdução da mulher negra na poesia moderna africana. Passados trinta e oito anos da independência nacional, é lamentável não existir nenhuma edição nacional da obra do pai da literatura angolana. No ano de 2001, o seu livro “Delírios”foi editado na terra de Luís de Camões, é de louvar o esforço do escritor angolano Eduardo Bonavena.

Pombal Maria


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Manoel Messias Pereira

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