sábado, 9 de março de 2013

Os Sítios Arqueológicos Paleoíndios na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul: Novas Perspectivas de Estudo




Os Sítios Arqueológicos Paleoíndios na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul: Novas Perspectivas de Estudo

por Viviane M. Pouey Vidal

Sobre o artigo [1]

Sobre a autora [2]

As ocupações paleoíndias no Rio Grande do Sul foram descobertas por Eurico Miller[3] e colaboradores durante as atividades do Programa de Pesquisas Arqueológicas PRONAPA, (1965-1970) e posteriormente incluídos no PROPA (Programa de Pesquisas Arqueológicas sobre o Paleoíndio Paleofauna, Paleoclima, do Rio Uruguai, do Rio Ibicuí e Áreas Próximas do Rio Grande do Sul, Brasil. 1972-1978). As pesquisas contaram com o apoio das seguintes instituições científicas, Instituto Smithsonian - EUA, Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul (MARSUL) e a Fundação de Amparo à Pesquisa no Rio Grande do Sul (FAPERGS).

Entretanto, os resultados das pesquisas do PROPA foram pouco divulgados. Neste caso, os diários de campo do arqueólogo Eurico Miller (1972-1978), bem como os raros artigos do investigador podem ser considerados até o momento, as únicas referências existentes sobre as atividades realizadas nos sítios paleoindígenas no Rio Grande do Sul.

As descrições de Miller (1972/1978) denotam a localização de importantes sítios paleoíndios, nos municípios de Uruguaiana e Quarai à sudoeste, Alegrete e Itaquí no centro-oeste e, São Borja à noroeste. No rio principal, o Uruguai (médio), assim como nos rios Ibicuí ao centro da área. Quaraí ao sul, Icamaquã e Ijuí ao norte, arroio Touro Passo no centro-sul e, dezenas de córregos (arroios) menores. (MILLER, 1987).

De acordo, com Miller (1976/1987), a maioria dos sítios estão associados a depósitos fluviais situados ao longo do curso médio do rio Uruguai. As primeiras investigações apresentam algumas problemáticas, devido a seus procedimentos metodológicos, baseados em coletas superficiais de fósseis e artefatos líticos. As escavações na maioria dos casos se limitaram a poços de sondagem artificiais, pouco descritos; ineficaz divulgação de informações e limitada publicação de dados. Problemas com a conservação do material arqueológico; modelos paleoambientais generalizados e uma busca de estabelecimento de fases com posicionamentos cronológicos e espaciais, a partir de contextos culturais também são constantes nos programas de pesquisas deste período (DIAS,2004).

Durante as pesquisas de Miller (1965/1970) e (1972/1978) não foram realizadas escavações em áreas amplas, pois a preocupação dos arqueólogos consistia na localização das culturas no tempo e no espaço. Porém, é importante mencionar que apesar das inúmeras lacunas resultantes das investigações dos referidos períodos, o PROPA, também proporcionou importantes informações para a região em estudo, bem como, algumas datações que serão revisadas na pesquisa de tese da autora do presente artigo. Entre as datações, a mais antiga pertence ao Arroio dos Fósseis no município de Quarai (RS-I-50) 12.770+220 AP (SI 801), a partir de um crânio de Glossotherium robustus associado com raspadores e lascas retocadas. No entanto, tendo em vista a localização dos vestígios depositados nas margens do rio Uruguai é necessário considerar os processos tafonômicos que provavelmente caracterizam a associação, como proveniente de arrastes fluviais.

Contudo, apesar da relevância de informações arqueológicas, paleontológicas, tafonômicas, geoarqueológicas e paleoambientais que os sítios do período de transição pleistoceno-holoceno situados na fronteira oeste do Rio Grande do Sul podem oferecer, os estudos foram encerrados juntamente com o programa de incentivo as pesquisas PROPA (1972/1978).

Nesta perspectiva, as referidas lacunas e questionamentos resultantes das pesquisas realizadas por Miller durante o PROPA, entre outras hipóteses estão representadas, como objetivos centrais do projeto de tese apresentado por Vidal (2011) na UNICEN (Universidad de Olavarria/BA). O objetivo da pesquisa é construir uma base de dados que colabore com a ampliação das reflexões teóricas relativas aos estudos das ocupações caçadoras/coletoras, durante a transição Pleistoceno-holoceno no Sul do Brasil. As pesquisas serão realizados a partir de uma abordagem multidisciplinar que proporcione conhecimento cultural, arqueológico, tafonômico, paleontológico, paleoambiental e geoarqueológico. Na perspectiva geoarqueológica serão estudadas, analisadas e comparadas as formações sedimentares, Touro Passo (Brasil), Sopas (Uruguai) e Lujan (Argentina).

Também será efetuada uma análise tecno-tipológica comparativa, entre a coleção arqueológica evidenciada nos sítios e as coleções paleoíndias localizadas nos países vizinhos, Uruguai e Argentina.

Nesse sentido, a pesquisa contará com a participação de pesquisadores das distintas especialidades, visando aprimorar a interpretação das informações obtidas nos sítios arqueológicos e nas localidades paleontológicas. Alguns questionamentos colaboram com a formulação dos objetivos específicos da investigação, como:

- Quando foi povoada a fronteira oeste por caçadores - coletores?

- É possível estabelecermos uma relação entre a ocupação inicial da fronteira oeste do RS, com os sítios paleoíndios localizados em Artigas ( Uruguai) e demais contextos da América do Sul?

- Existem indicadores paleoambientais e paleoecológicos presentes nos sítios, que permitam uma comparação com os dados obtidos em pesquisas já realizadas em regiões próximas?

- As evidências geoarqueológicas presentes na área do estudo demonstram o início do holoceno?

- Os vestígios faunísticos e vegetais possibilitam estabelecer as características gerais do processo de mudanças, com base em estudos comparado de associações contextuais intra-sítio e contextos inter-sítio?

- Quais as mudanças ou continuidades evidenciadas na cultura material lítica dos caçadores-coletores, durante a transição pleistoceno - holoceno?

Problemática

A palavra Paleoíndio, utilizada nesta pesquisa, textualmente significa "indio-antigo", esta começou a ser utilizada na década de 1940 na arqueologia dos Estados Unidos para diferenciar as ocupações mais antigas, relacionadas ao complexo ou cultura "Llano" das mais recentes (Haury et al., 2004). Ao longo das décadas seguintes o termo foi difundido pela América do Norte e América do Sul, permanecendo até a atualidade (Miotti, 2006; Morrow e Gnecco, 2006; Jackson, D, 2004; Dias, 2004, Politis, 2008, Suárez, 2010). O termo "Paleoíndio" para os pesquisadores norteamericanos possui significados econômicos e temporais, relacionando os grupos humanos como caçadores de grandes presas, em espaços abertos. De acordo com Gnecco, (1990) para os norteamericanos o período paleoíndio é dividido em três estágios: temprano, médio e final.

Na presente pesquisa que se encontra em fase de desenvolvimento, as definições do termo paleoíndio não possuem conotações econômicas relacionadas a subsistência, ou que impliquem descendência genética com humanos mais recentes, ou americanos (Pucciarelli, 2004). Desse modo, "paleoíndio" é usado em sentido cronológico amplo para distinguir ou denominar a grupos humanos que viveram na América durante o final do Pleistoceno e na transição Pleistoceno-Holoceno. Os debates sobre o povoamento da América, utilizam-se de outros termos como povoar, migrar e colonizar.

Segundo Politis (1999) é necessário definir tais conceitos para caracterizar a expansão do Homo sapiens no continente americano. Para o autor: Poblar: "se refiere al movimento e instalación de gente en un lugar despoblado" ; Colonizar: "se refiere a um grupo de gente que se asienta en un lugar distante, pero que permanece bajo la juriscción política de su territorio nativo" e Migrar : "moverse o mudarse de un lugar a outro, especialmente dejar el país de uno y asentarse em outro" (Politis, 1999 : 26).

Neste contexto, podemos afirmar que nas últimas décadas as pesquisas sobre os caçadores-coletores do período de transição Pleistoceno-Holoceno na América do Sul têm sido tema de interesse nos debates de reconhecidos pesquisadores, como (Politis, 1999a, Bonnichesen y Turmine, 1991, 1999, et al. 2005; Borrero, 1999a; Melter,1993a, 2003, 2004, 2009; Dias e Jacobus, 2003, Dias, 2004, Goebel et al., 2008, Steele y Politis, 2009, Donald Jackson, 2008, Suárez, 2010).

Os resultados das investigações destes profissionais apresentam diferentes questionamentos e enfoques metodológicos para os assentamentos estudados, contribuindo significativamente para a ampliação do conhecimento sobre a temática. Entretanto, apesar dos avanços das pesquisas arqueológicas mencionadas acima, é necessário lembrar que no Estado do Rio Grande do Sul, especificamente na fronteira oeste, esta problemática foi estudada de forma ineficiente e limitada. Os breves dados disponíveis referentes às pesquisas realizadas na região contêm interpretações descritivas e metodologias frágeis. As análises tecno-tipológicas dos artefatos líticos reunidos durantes as pesquisas de campo do PROPA, também demonstram a fragilidade do conhecimento sobre a arqueologia da área em estudo, na medida em que buscavam nas similitudes dos artefatos argumentos para a definição de fases e tradições arqueológicas (Dias, 2003).

Ao longo das pesquisas do PROPA Miller (1972-1978) menciona a localização de 14 sítios paleoíndigenas no Estado do Rio Grande do Sul com datações cercanas a transição pleistoceno-holoceno. A maioria destes sítios estão associados à depositos fluviais ao longo do curso médio do Rio Uruguai (Dias , op.cit. 2004 : 258). Porém, como já comentado a priori, pouco ou quase nada se conhece sobre os resultados obtidos nestes sítios. Os diários de campo de Miller (1972-1978) e sua publicação intitulada "Pesquisas Arqueológicas Paleoindígenas no Brasil Ocidental" (1987) podem ser considerados as únicas informações disponíveis para a arqueologia da região.

Após o encerramento das atividades do PROPA (1972-1978) na fronteira oeste, a problemática dos sítios localizados por Eurico T. Miller é retomada por Saul Milder (2000). Porém, o objetivo da pesquisa de Milder (2000) foi revisar a documentação do PROPA (relatórios e diários de campo), assim como realizar análises geoarqueológicas nas várias áreas do Sudoeste do Rio Grande do Sul já prospectadas e escavadas por Miller (1972-1978). Estudando os sítios paleoíndios inseridos na Fase arqueológica denominada "Fase Uruguai (11.555 - 8.500 AP)", visou conhecer o processo de formação dos sítios arqueológicos em planícies de inundação, bem como elaborar um modelo de análise locacional para os sítios do sudoeste. Nesse caso, a tese de Milder (2000) apresentou uma revisão bibliográfica e uma breve leitura dos perfis estratigráficos, não realizando escavações intensivas nas áreas.

Nesta perspectiva, a presente pesquisa considera indispensável a realização de novas atividades de campo que contemple intensivas prospecções, escavações arqueológicas, análises geoarqueológicas e paleoambientais. Visando um maior conhecimento geoarqueológico da área em estudo, a pesquisa também contará com a colaboração de um especialista em geoarqueologia/UNICEN.

Bibliografia

CASTIÑEIRA, Carola y Juan Carlos Fernicola. (2004). Procesos de Formación de Registros Asociados: el registro paleontológico y arqueológico del Norte de Uruguay. Ponencia presentada en XV Congreso Nacional de Arqueología Argentina, Río Cuarto, Córdoba.

DIAS, A; JACOBUS, A.(2003). Quão Antigo é o Povoamento do Sul do Brasil? . Revista do Cepa. Vol.27, n.38. (jul./dez.2003) Santa Cruz do Sul: Editora UNISC, 2004.

FAVIER, Dubois C. (2000) La geoarqueologia y los procesos de formación del registro.En: La perspectiva interdisciplinaria en la arqueología contemporánea. Hugo Nami (Ed), Arqueologia Contemporánea,6:123 -141.

JACKSON, D., C. MÈNDEZ Y P. DE SOUZA. (2004). Poblamiento Paleoindio en el norte-centro de Chile: evidencias, problemas y perspectivas de estudio. Complutum15:165-176.

MILDER, S. E. S. (2000). Arqueologia do Sudoeste do Rio Grande do Sul: uma perspectiva geoarqueológica. Tese de Doutorado. São Paulo: USP/MAE.

MILLER, E. Th. (1987). Pesquisas Arqueológicas Paleoindígenas no Brasil Ocidental. Estudos Atacameños, n. 8, (especial) San Pedro de Atacama: Universidad del Norte, p.37- 61.

______. (1976). Resultados preliminares das pesquisas paleoindígenas no Rio Grande do Sul. In: Congresso internacional de Americanistas, vol. III. p. 483-491. México.

______. (1969). Pesquisas arqueológicas efetuadas no Oeste do Rio Grande do Sul (Campanha e Missões). Publicações avulsas do Museu Emilio Goeldi, Belém, n. 13, p.13-30.

MIOTTI, L.(2006) La Fachada Atlántica como puerta de ingreso alternativa de la colonización de América del Sur durante la Transición Pleistoceno/Holoceno. En II Simposio Internacional El Hombre Temprano en América, editores J. C. Jiménez et al., pp. 156-188. INAH. México D.F.

POLITIS, G. (1999). La estructura del debate sobre el poblamiento de América. Boletín de Arqueologia (Argentina).

Politis, G. y M. Gutierrez (1998) Gliptodontes y Cazadores-Recolectores de la Región Pampeana (Argentina). Latin American Antiquity 9 (2):111-134.

PUCCIARELLI, H. (2004). Migraciones y variación craneofacial humana americana. Complutum 15: 225-248.

SUÁREZ, R., (2010). Arqueología Durante la Transición Pleistoceno-Holoceno: Componentes Paleoindios, Organización de la tecnología Lítica y Movilidad de los Primeros Americanos en Uruguay. (Tese Doctoral en Ciencias Naturales). Universidad Nacional de La Plata.

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