sábado, 7 de janeiro de 2012

Papel dos Estados Unidos no Iraque "arrogância do poder"



Shlomo Ben-Ami



Iraque hoje

A dobragem da bandeira americana no Iraque, rodeada pelo estado de ruína da segurança pública e por uma crise severa na frágil ordem política do país, encerra um capítulo trágico na história dos Estados Unidos. Foi o culminar de um dos mais claros casos de exagero imperial que o antigo senador do Estados Unidos, William Fulbright, denominou como "arrogância do poder".

Violentamente dividido por rivalidades religiosas e étnicas, o Iraque não se encontra em posição de poder representar o seu papel na visão americana de um muro de contenção árabe ao Irão. A menos que o regime iraniano seja categoricamente humilhado durante o seu confronto com o Ocidente devido ao seu programa nuclear, o cenário mais plausível será o de um Iraque de predomínio xiita, com tendência para se aproximar da órbita estratégica iraniana, em vez de se tornar parte integrante dos desígnios regionais norte-americanos.

Após dez anos de guerra, mais de 100 mil baixas, principalmente iraquianas e um custo astronómico de quase um bilião, os Estados Unidos deixam para trás um Iraque que não é nem mais seguro nem especialmente democrático. É, na realidade, um dos países mais corruptos do mundo (ocupa o 175.º lugar de um total de 178 países, de acordo com a organização Transparência Internacional). A guerra, que supostamente era um pilar principal no esforço de reestruturação do Médio Oriente sob a orientação da América, acabou por marcar aí o declínio da sua influência.

O Médio Oriente sugou os recursos e energias da América, mas os retornos foram desesperadamente escassos. A Turquia, com o seu "perigoso ministro dos negócios estrangeiros" (foi assim que os Estados Unidos classificaram Ahmet Davutoğlu, num telegrama que foi divulgado pela WikiLeaks), tem vindo a elaborar as suas políticas regionais de uma forma que colide frequentemente com os desígnios norte-americanos. Israel rejeitou as iniciativas de paz do presidente norte-americano, Barack Obama, e até recusou um prolongamento da paragem da construção das suas colónias por um período de três meses, apesar da proposta de uma compensação estratégica sumptuosa. O presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, ignora de forma provocadora as ameaças norte-americanas de cortar o apoio à Palestina, caso esta persista no seu pedido de integrar as Nações Unidas como membro. E os líderes árabes fazem troça da forma ingénua como Obama confia nas negociações como meio de travar as ambições nucleares do Irão.

Este "despertar árabe" diz respeito a uma mudança democrática interna; é o repudiar da cumplicidade entre os Estados Unidos e os autocratas locais e o paradigma americano, tão evidente no Iraque, da "democracia" importada nas asas dos F-16.

O futuro mantém-se incerto, mas o pressuposto de que a reivindicação árabe por governos justos e dignidade civil pode ainda ser reprimida, como um génio a ser forçado de volta para dentro da lâmpada, é uma fantasia egoísta de autocratas incorrigíveis - e de alguns no Ocidente. A política governamental árabe irá tornar-se mais representativa da vontade do seu povo, mesmo quando esta seja representada, como se pode verificar actualmente, por maiorias Islâmicas.

A América aprendeu da pior forma que pode conviver com os Islâmicos; afinal de contas deixa em Bagdad um governo xiita com ligações estreitas ao Irão e está a combater os talibãs no Afeganistão como último recurso para se retirar de uma guerra que não pode vencer. A Irmandade Muçulmana e os Salafistas no Egipto, a Al-Nahda na Tunísia e o Partido da Justiça e Desenvolvimento em Marrocos são agora os interlocutores do Ocidente.

A diplomacia israelita, no entanto, é um exemplo surpreendente de dissonância cognitiva. Persiste em excluir o Hamas como interlocutor, enquanto negoceia com a maioria democrática islâmica egípcia.

Não dominando a política na região nem a liderando realmente, os Estados Unidos são um espectador do desenrolar deste drama árabe. A integridade estatal do Iraque permanece uma incógnita, tal como o desfecho da revolução egípcia. O poder saudita e a aquiescência norte-americana permitiram abafar a agitação democrática no Golfo, mas as dinastias regionais não podem ter a esperança de escapar para sempre à forca da história.

Entretanto, a fraqueza norte-americana permitiu à Rússia retomar as práticas utilizadas durante a Guerra Fria na região. A protecção diplomática russa do regime brutal sírio face à ira da comunidade internacional, e do Irão face à tentativa ocidental de danificar a sua economia, tem a sua origem na convicção de que dez anos de guerras dispendiosas e inconclusivas reduziram a credibilidade global da América.O tom desafiador do Kremlin relativamente aos Estados Unidos estende-se também ao sudoeste asiático. O embaixador russo da NATO, Dmitri Rogozin, ameaçou recentemente que o seu país poderia encerrar a linha de abastecimento norte-americana ao Afeganistão.

Em suma, a América encara um momento de balanço, que deverá conduzir a um período de equilíbrio estratégico abrangente. O legado das guerras no Iraque e no Afeganistão, tal como o da Guerra do Vietname, irá, com certeza, ensinar os Estados Unidos a serem mais cuidadosos na utilização do seu poderio militar. Deverá também sugerir que seja dada maior relevância à legitimidade internacional e às alianças multilaterais quando se lida com regimes hostis.

Fundamentalmente, a atenção excessiva da América no Médio Oriente terá agora de ser moderada por uma mudança de atenção para outras regiões de interesse vital nacional. Isto deverá conduzir a uma competição económica saudável com a China, em conjunto com a protecção dos interesses norte-americanos na orla do Pacífico, agora ameaçada por uma influência chinesa em expansão. Poderá também significar um envolvimento com a Rússia, na esperança de que a sua sociedade civil emergente dê origem a um regime mais verdadeiramente democrático, que esteja pronto para ultrapassar os traumas da Guerra Fria e que estreite a sua cooperação com o Ocidente.

Ao mesmo tempo, a atitude de desdém face à Europa que se sente na América é injustificada e autoderrotista. A existência de laços estreitos com uma União Europeia revitalizada continua a ser vital para a projecção global dos valores e interesses ocidentais.

O isolamento estéril vai contra a própria concepção da América como uma nação detentora de uma missão global. Mas o terrível legado das suas duas últimas guerras requer que esta se foque numa melhoria interna. O aumento do poder "suave" da América, a salvaguarda da sua supremacia como núcleo da sua capacidade de inovação sem paralelo, a reforma da sua infra-estrutura deteriorada e sistema educativo vacilante e a eliminação da sua dependência do crédito externo, poderão ser mais úteis na consolidação da liderança global americana do que qualquer guerra bem sucedida.



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Manoel Messias Pereira

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